Vamos falar sobre expatriação?

Quando eu morava no Brasil raramente escutava essa palavra, mas desde que cheguei na Suécia vejo posts e grupos de pessoas que se reúnem para conversar sobre o assunto com frequência. Acho que é um tema bastante relevante, mas complexo para ser tratado de maneira superficial, por isso resolvi bater um papo com a Viviane Magalhães, psicóloga clínica que também mora aqui na Suécia. Já aviso que será um post longo e repleto de informações, então pegue uma xícara de café, um chá e aprecie a leitura 😉

O que é expatriação?

Expatriação é o ato de deixar a sua pátria de origem para residir em outra nação. Historicamente, o termo era usado para se referir às pessoas que deixavam seus países por questões políticas, como por exemplo, os brasileiros que abandonaram o Brasil durante a ditadura militar. Hoje, o termo é mais comum para se referir aos profissionais que são enviados pelas empresas para o exterior e também aos profissionais que decidem por conta própria arrumar um emprego em outro país.

História em comum

Como grande parte das brasileiras que eu conheço (estou me referindo ao meu círculo de amizade e não às estatísticas do país), Viviane veio para Suécia por causa de uma oportunidade de emprego para o seu marido e também pela sua vontade de ter uma experiência de morar fora, principalmente num país da Escandinávia. Ela está na Suécia há pouco mais de seis meses.

O processo de mudança

Mudar não é algo fácil, quando se trata de sair do país então tudo fica mais complexo. “Tivemos algumas dificuldades como desfazer do apartamento, do meu espaço profissional, das coisas, vender, dar, trocar. Fazer toda essa limpa foi um processo estressante. As despedidas foram muito dolorosas, confesso que mais perto da viagem comecei a evitar, porque senti que não ia dar conta. E depois, a adaptação ao local, apesar de chegarmos no verão e a cidade estar linda e logo de cara amar este lugar, o sentimento de estar perdida era intenso. Ir ao mercado, pegar um ônibus, coisas simples viram uma complicação. Os três primeiros meses foram difíceis e ao mesmo tempo divertido porque passeamos muito“, disse Viviane.

Foto: Viviane Magalhães (arquivo pessoal)

A mudança pode ocorrer de maneiras diferentes para as pessoas, para a psicóloga lidar com ela mesma foi o mais difícil neste processo. “Porque é uma experiência que te coloca em contato com tudo aquilo que, na sua zona de conforto, você consegue esconder. Morar fora pode trazer a toda muitos conflitos internos e externos (relação com filhos e marido), afirma.

As dificuldades da expatriação

Artigos acadêmicos afirmam que alguns fatores podem atrapalhar o processo de adaptação: idioma, cultura, vida social, adaptação da família. Mas no dia a dia se fala tão pouco sobre expatriação e, talvez por isso tantas pessoas não se preparam para a mudança.

Vou falar do que já vivenciei durante o tempo em que atendo brasileiros que moram fora (cerca de 02 anos), que no Brasil existe uma imaginário sobre a expatriação  muito ligado a uma experiência cobiçada e vista como algo muito bom e para privilegiados. Brasileiros tem uma cultura de valorizar aquilo que vem de fora e essa experiência é vista como algo positivo e por isso pouco se fala sobre os malefícios, e também é uma experiência para poucos (cerca de 22,4 mil, menos de 1% da população). Somado a isso, o mundo tem sofrido com questões ligadas aos refugiados, acho que isso acaba tomando uma atenção maior do que aos expatriados, que saem de seus países em melhor condição. Eu acredito que muitos não se preparam para essa mudança motivados por essa “romantização” sobre o morar fora que existe no Brasil, e também por aquele sentimento de “pior não fica” por conta e tudo o que tem ocorrido no Brasil. Muitos pesquisam e tem noção das dificuldades que serão vividas, mas não acreditam que serão tão profundas, uma frase que eu escuto muito é “eu sabia que seria difícil, mas não imaginei que seria tanto“, conta Viviane.

De acordo com o artigo “Uma análise sobre os processos de expatriação e repatriação em organizações brasileiras“, escrito por Nereide Prudêncio Vianna e Yeda Swirski de Souza, a adaptação pessoal e profissional depende muito da adaptação intercultural. As diferenças culturais entre regiões e países muitas vezes exigem mudanças de hábitos, costumes, rotinas e crenças. Ainda segundo os estudos, o cônjuge do profissional expatriado pode ser o elemento chave para a adaptação, por isso é fundamental que essa pessoa também tenha oportunidades de desenvolver seus próprios interesses. Outro fator importante para a adaptação familiar é o conhecimento do novo idioma, principalmente para o cônjuge, pois caso não esteja trabalhando também é provável que fique mais em casa e tenha menos convívio social.

Quando meu marido estava em processo seletivo para vir para a Suécia,o chefe dele quis se certificar várias vezes de que ele estava tomando essa decisão em conjunto com a família, ele usou uma expressão que eu achei bem pertinente: “Happy wife, happy life.” Quando você muda de país por causa de uma chance profissional para uma pessoa do casal, isso envolve uma carga emocional muito grande. Quem deixou para trás sua profissão e estabilidade para acompanhar quem veio a trabalho pode se sentir frustrado, e a pessoa que trabalha sente-se culpada, sente o peso de ter “mexido” com toda a dinâmica familiar. Por isso é muito importante que cada membro da família tenha seus projetos para essa nova vida, só acompanhar o marido/esposa nessa nova experiência, sem uma perspectiva do que fazer nesse novo país ou de como também poderá usufruir dessa experiência, pode ser muito frustrante. Mas se você vem consciente do que abriu mão, mas com uma perspectiva pessoal (não só pelo que é bom para os filhos, marido/esposa, algo bom para VOCÊ) fica um pouco mais fácil de encarar essa experiência, se não há planos pessoais ou uma perspectiva, existe a tendência de só olhar para o passado, sem enxergar benefícios no presente ou futuro”, afirma Viviane.

O expatriado

Não é só a família que sente o grande impacto da mudança. O trabalhador que chega em uma nova empresa pode encontrar diversas dificuldades, como por exemplo, o idioma e a cultura da organização. Segundo Viviane, por mais que o expatriado domine o idioma, pode ser cansativo pensar e se comunicar o tempo todo dessa forma. Além disso, as leis e regras trabalhistas podem ser bem diferentes. “Ao mesmo tempo que se tem alguns benefícios, pode ser perder outros e mais uma vez, é muito importante estar consciente do que está disposto a abrir mão. E claro, a cultura, o ambiente de trabalho no Brasil pode ser mais caloroso e descontraído, dependendo do país onde você vai, o trabalho é só trabalho, não é uma ambiente para fazer amigos ou descontrair. Mas acredito que pesa muito a pressão em fazer dar certo, principalmente quando você desloca toda a sua família, é uma autocobrança que pode desencadear muito sofrimento emocional. E nessa situação é importante entender que existe o que você pode fazer, que é trabalhar da forma que é esperado com base naquilo que você foi contratado, mais que isso é difícil porque não temos o controle de tudo que nos ocorre. É importante estar ciente de que mesmo fazendo o seu melhor como empregado, pode haver um risco de rescisão de contrato, e que nem sempre isso se dá por motivos pessoais (desempenho), é um risco que se corre quando se assume a decisão de trabalhar fora”, conta a psicóloga.

Vou me mudar, e agora?

Muitas pessoas quando decidem mudar de país sentem uma mistura de empolgação, ansiedade e desespero. E segundo Viviane é normal ficar ansioso, faz parte do processo, mas não precisa ficar desesperado, o segredo é se organizar e se informar.

Para a psicóloga, quando se decide sair do país, a primeira coisa a fazer é uma profunda pesquisa sobre o novo destino. Entender a cultura, a política, hábitos locais é fundamental, até mesmo para ter “uma prévia” do que a sua família poderá encontrar no novo país. É bacana também procurar fóruns, blogs ou sites onde expatriados compartilham suas experiências. Claro, vão ter pessoas falando bem, falando mal, mas o importante é se informar ao máximo e tirar suas próprias conclusões.

Outra coisa é planeje-se para fechar o ciclo no Brasil, vivenciar o “luto” pelo que fica, ter tempo de se despedir de uma vida que fica para trás, acredito que isso ajuda muito na conexão com o novo lugar, para se manter no presente momento. Se informe, planeje, organize, reflita sobre o que essa experiência pode agregar para você pessoalmente e vá com a cabeça muito aberta para se experimentar em uma nova vida.“, afirma Viviane.

Você pode se preparar de várias formas, se informando, se organizando, pesquisando, mas saiba que preparado mesmo, 100%, você nunca estará, eu brinco que morar fora é como maternidade/paternidade, por mais que você se informe é só quando você vive que você sente como realmente é, então, pesquise e se organize, mas abra mão um pouco de querer ter o controle de tudo e deixe espaço para se surpreender pela experiência.

Viviane Magalhães, psicóloga clínica

Como lidar com o mix de culturas

Quando mudamos de país encontramos um lugar completamente novo, são novos hábitos, novas crenças, novos comportamentos, nova culinária e para muitas pessoas é complicado lidar com essa nova realidade.

Segundo Viviane, fazer uma imersão em uma nova cultura é algo bastante complexo, porque é preciso estar disposto a vivenciar tudo isso. “Envolve muita coisa, como por exemplo, abrir mão de muitas “verdades” que carregamos sobre nós, é sair muito da zona de conforto. Isso vai de coisas simples a mais complexas como comer coisas diferentes a trabalhar em uma área diferente da profissão no Brasil. Envolve um desapego bem grande por casa, por carro, por “mordomias” que temos em nosso país de origem. E isso faz parte do processo de se preparar para uma expatriação, ter consciência do que você está disposto a abrir mão, porque chegar em um outro país, numa outra cultura, com expectativa de que as coisas pouco mudaram, infelizmente é um caminho para a frustração. E se abrir para uma nova cultura não significa abrir mão da nossa, é saber que apesar da saudade e das coisas boas de nosso país, também podemos usufruir e gostar de coisas novas”, afirma.

A adaptação infantil

Muitos pais optam por sair do país para dar mais oportunidades para seus filhos, mas a grande dúvida é: como preparar os pequenos para tantas mudanças?

Minha resposta é, preparando primeiramente a si mesmo, as crianças ficarão bem e seguras se sentirem que seus pais estão bem e seguros. Se já forem mais velhos, a partir de uns 05 ou 06 anos, conversar muito com eles e envolvê-los na mudança, compartilhar informações, mostrar um pouco de como será ajuda a dar segurança e reduzir a ansiedade.


E a falta dos familiares e dos amiguinhos?

Eu estou só a 06 meses e sinto falta todo dia, tem dias que essa falta fica muito mais dolorosa e outros dias que fica ok. Nos dias que a saudade é muita acho válido tentar falar com alguém no Brasil, ou se não puder, acolha sua dor, a gente muita vezes quer fugir mas é bem pior, converse com o parceiro (a) não se isole. Acredito que essa falta sempre nos acompanhará, mas com o passar do tempo vai ficando um pouco mais leve conforme vamos nos integrando mais ao novo país.

A adaptação escolar em um ambiente com outro idioma, como pode ser positiva?

Isso depende muito da idade da criança ou se é um adulto, para crianças até os 06 anos talvez seja um processo mais tranquilo porque a comunicação depende pouco do verbal, é muito mais o brincar. Para crianças já alfabetizadas, adolescentes e adultos, pode ser uma fase bem complicada, envolve muitos aspectos, podemos falar mais em outro momento. (Vamos pensar em um post sobre esse assunto, ok?)


É importante inserir a criança em todo o processo de mudança?

Sim, é muito importante.

Como tornar tudo isso divertido e lúdico para as crianças?

Trazendo referências divertidas do país como: comida, desenho que traga algum personagem local. Trazer uma perspectiva positiva, por exemplo: “Você não vai levar todos os seus brinquedos, mas poderá ter brinquedos novos.” Vai conhecer novos amigos, conhecer lugares diferentes.” “Não vai ter mais a praia, mas poderá brincar na neve.”

Viver em outro país é uma experiência que pode ser maravilhosa, uma oportunidade de se reinventar, de viver a mesma vida de sempre mas sob uma perspectiva diferente.

Viviane Magalhães, psicóloga clinica

Você pode encontrar a Viviane no Instagram, no Facebook e pode entrar em contato com ela por e-mail: viviane.psicologa@yahoo.com.br

Instagram: Psicologa_vivi

Facebook: Psicóloga Viviane Magalhães

E aí? Gostou do post de hoje? Deixa seu comentário aqui embaixo e compartilhe a sua experiência 😉

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